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Do chão ao voo livre, o guará vermelho desenha os traços da nossa primeira edição da Raízes & Rotas

Por Elizangela Nobre Bafini 

Editora-chefe | Revista Raízes e Rotas 

 

“Entre o solo que nos ancora e o sonho que nos move, existe um território invisível onde o humano se encontra com o simbólico, onde a memória resiste e a cultura floresce. É da força que rompe as barreiras entre o real e o ideal que nascem as raízes e se desenham as rotas que dão sentido à vida. Nessa existência, que se manifesta no coletivo, o sentimento de pertencimento pulsa, a história se renova e a energia humana transcende. É exatamente nesse lugar que a cultura vibra.”

 

A Revista Raízes & Rotas nasceu desse propósito: traduzir o Brasil em suas múltiplas camadas, revelar as identidades que habitam seus territórios e valorizar as experiências que unem o passado ao futuro, a tradição à inovação, o chão à esperança. Em cada edição, nossa intenção não é apenas contar histórias, mas escutá-las, observá-las e sentir seus ecos na paisagem e nas pessoas que fazem da cultura uma força de transformação.

“Cubatão foi, um dia, sinônimo de tristeza e dor. Hoje, é metáfora viva da superação: uma cidade que se reconstruiu pela ciência, pela arte, pela força do trabalho coletivo e, principalmente, pelo amor do seu povo por essa terra.”

Confesso que a escolha de Cubatão foi uma grata surpresa, daquelas que o coração reconhece antes da razão. Ainda muito pequena, lembro que nossos domingos começavam ao chegar, ainda de madrugada, à antiga casa de madeira dos meus avós, vindos de Minas Gerais para viver na conhecida Rua Arthur Bernardes. Meu pai nos deixava rapidamente e partia ao som de moda de viola, como um bom filho de Pirassununga, rumo ao trabalho na siderurgia da cidade. O cheiro de terra molhada do quintal, o tempero inconfundível da comida de vó e os domingos de casa cheia de histórias e risadas são, até hoje, as memórias mais doces da minha infância.

Para além da conexão pessoal, fazer de Cubatão o ponto de partida desta jornada editorial é reconhecer, com lucidez e emoção, que os lugares também têm essência e alma; que uma vez alcançado o coração, a memória não nos permite apagar, e que, mesmo os que carregaram feridas profundas, podem se reinventar e florescer novamente.

Cubatão foi, um dia, sinônimo de tristeza e dor. Hoje, é metáfora viva da superação: uma cidade que se reconstruiu pela ciência, pela arte, pela força do trabalho coletivo e, principalmente, pelo amor do seu povo por essa terra. E também pela fé: daquelas que só quem acredita de verdade, e com devoção, é capaz de sustentar por tanto tempo. Fé que resiste, insiste e, enfim, colhe os frutos de um sonho que se plantou com coragem: a cidade recuperou o ar, a água e o sentimento de pertencimento; e provou ao mundo que o desenvolvimento só é verdadeiro quando é sustentável, inclusivo e humano.

 

Imponente, a rainha das serras nos ensina que o progresso não precisa apagar a memória — e que a natureza, quando respeitada, devolve à sociedade muito mais do que equilíbrio ecológico: devolve dignidade, beleza e orgulho. Celebramos aqui uma cidade que transformou o estigma em exemplo, que escreveu um novo capítulo de sua história com dedicação, técnica e amor.

Um território que, ao reduzir mais de 90% de suas emissões industriais, replantou também sua identidade, tornando-se, em 2025, “Cidade Verde do Mundo”, título concedido por organismos internacionais ligados à ONU.

 

E é com esse espírito — o de uma cidade que soube renascer — que abrimos esta edição.

Cubatão não é apenas um destino turístico. É um símbolo. Um lembrete de que a cultura pode ser o fio que costura as rupturas, que reconcilia o homem com o território, que inspira a sonhar e agir.

 

Aqui, entre o chão e o sonho, reconhecemos o valor do trabalho silencioso que transforma paisagens e histórias. Celebramos aqueles que acreditam que o futuro se constrói com propósito e sensibilidade, e reafirmamos a convicção de que o turismo cultural é, antes de tudo, um gesto de afeto pelo mundo em que vivemos.

Porque onde há cultura, há vida.

E onde há vida, há sempre a possibilidade de recomeçar.