Como o fechamento da Ford impactará o mercado local? – PORTO CIDADE

O ano mal começou e funcionários da Ford receberam, na tarde do dia 11/01, um comunicado oficial sobre o encerramento de toda a operação fabril da marca no Brasil. Do chão de fábrica ao alto escalão, a decisão pegou toda a empresa — e a cadeia produtiva — de surpresa. A partir de agora, sobram inúmeras dúvidas acerca do futuro da companhia no país e dos impactos da decisão para o setor, que vive uma forte transformação: definitivamente, o mercado brasileiro não será mais o mesmo.

DESAFIOS DO SETOR E SEUS IMPACTOS NA ECONOMIA LOCAL – Sem a mesma repercussão, e na contramão da decisão da Ford, a General Motors vai retomar o plano de investimentos de R$ 10 bilhões no Brasil, que havia sido anunciado em 2019 e ficou suspenso por causa da pandemia do coronavírus. O montante será investido no estado de São Paulo, especialmente nas fábricas de São José dos Campos e de São Caetano do Sul, no ABC paulista. A previsão anterior era de que a planta do Vale do Paraíba recebesse até R$ 6 bilhões do investimento, mas a GM ainda não detalha a divisão do recurso. Uma boa parte do montante será destinada a novos modelos de carros.

Em comunicado, a montadora disse que os “investimentos são estratégicos para o desenvolvimento e a produção de veículos inéditos, além da ampliação da oferta de equipamentos”. “Somando o plano do quinquênio anterior, de R$ 13 bilhões, a GM aportará o maior montante de investimentos de uma empresa na história da indústria automotiva brasileira no período de uma década”, informou a GM.

Nas redes sociais, o prefeito de São José dos Campos, Felicio Ramuth (PSDB), celebrou o anúncio dos investimentos. O complexo industrial da GM em São José tem cerca de 3 mil trabalhadores e produz a picape S10 e a Trailblazer.

O último grande investimento na unidade ocorreu em 2008 e o novo aporte vem sendo cobrado pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São José, que espera a geração de novos empregos.

 

O COMPORTAMENTO DO COMÉRCIO INTERNACIONAL NO SÉCULO XXI: DO CAPITALISMO INDUSTRIAL AO CAPITALISMO 4.0 –  Para o economista e professor Luiz Carlos Barnabé de Almeida, o encerramento das atividades da Ford no Brasil merece uma reflexão muito mais ampla e profunda sobre o futuro da economia no mundo e seus impactos Brasil, e aponta para a necessidade de compreendermos essas mudanças.

 

Em agosto de 2020, o economista subscreveu artigo publicado no portal do Conselho Regional de Economia de Alagoas, apontado para os novos paradigmas do comercio internacional e do próprio Capitalismo industrial, conhecido como Capitalismo 4.0.

Barnabé afirmou em seu artigo, que nos primeiros vinte anos do século XXI, os cientistas sociais e empresários viveram o desafio de não se deixar influenciar pelos paradigmas do século XX. Segundo o economista, toda atenção é necessária para que não utilizemos o conhecimento vencido do século anterior, pois poderá levar ao erro de fundamento científico. “Atualmente é consenso entre os cientistas que o “conhecimento” é um fator de produção acumulativo e ilimitado e não está qualificado na lei dos rendimentos decrescentes, diferente de todos os outros fatores de produção classificados em:  capital humano, recursos ecológicos, capital de infraestrutura e tecnologias que são limitados e enquadram na citada lei econômica” afirmou.

Para ele, o destaque ao fator “conhecimento” é que a sua utilização gera o aumento de mais conhecimento, diferente dos outros fatores que diminuem ao serem utilizados. “As evidências comprovam que o referido aumento do conhecimento tem ocorrido em uma progressão geométrica, mesmo tendo a compreensão que um novo conhecimento pode invalidar o anterior, o novo conhecimento sempre será mais efetivo”

“Eu conheci a Ford no auge da empresa, no tempo em que ter a marca era um status, uma tradição. A partir da criação da Autolatina a Ford no Brasil perdeu sua marca e sua identidade”

Luiz Carlos Barnabé de Almeida

 

Barnabé de Almeida entende que o novo capitalismo indica que, diferente do passado, a Economia 4.0 pode dar saltos e o Brasil tem tudo para construir este caminho através de políticas contemporâneas no comércio internacional e utilizando da capacidade de seu povo de criar conhecimento e transformá-lo em inovação.

Neste sentido, é possível admitir que a repercussão sobre a decisão da Ford está sendo um exagero os meios de comunicação? E possível avaliar a dimensão dessa decisão na economia nacional, ou estamos no campo das especulações? A decisão da Ford serve como alerta para que o Brasil reavalie o chamado “custo Brasil”? Tal evento reforça a tese de que é preciso repensar um novo modelo fiscal, no âmbito da Reforma Tributária, que sirva como mecanismo de incentivo ao investimento privado e não mais como um desafio para o setor industrial, tanto nacional quanto estrangeiro? Como estamos dialogando com a sociedade?

Para refletir sobre esse tema, o Live Protagonismo Regional em Debate de 18 de janeiro de 2021, em seu painel PORTO CIDADE, abordou o tema: Como o fechamento da Ford impactará o mercado local?

Recebendo como convidados, Luiz Carlos Barnabé de Almeida, Professor e Diretor do Comitê Economia 4.0, Jorge Monteiro Junior, Economista e Diretor da Fatec Baixada Santista e Marco Antônio Francisco – Advogado, Consultor em Gestão e Analista Político.

 

SINDICATOS RESPONSABILIZAM GOVERNO FEDERAL – A decisão da Ford de fechar fábricas e encerrar a produção no Brasil, na avaliação de sindicalistas, afeta “cerca de 50 mil empregos na cadeia produtiva em torno das três plantas desativadas” e consequência da ausência de um projeto de retomada da economia brasileira, que contemple a reindustrialização do país. Em nota divulgada no dia 12, CUT e Força Sindical afirmam que o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, condenam o país a uma rota de desindustrialização e desinvestimento.

 

SUBSÍDIOS – Um dia após a veiculação da notícia, o presidente Jair Bolsonaro disse a apoiadores que a Ford não ‘falou a verdade’ sobre a decisão de fechar as fábricas no Brasil. Na avaliação do presidente, a empresa queria subsídios para continuar produzindo veículos no país. Neste ponto, os sindicalistas parecem estar ao mesmo lado do presidente e afirmam que “a Ford “foge” do Brasil deixando um rastro de desemprego e desamparo, após ter se valido durante muitos anos de benefícios e isenções tributárias dos regimes automotivos vigentes desde 2001, e que definiram a instalação da empresa em Camaçari, bem como a permanência das suas atividades no Ceará”.

Para Jorge Monteiro Junior, a decisão da forte não ocorreu como fator isolado, e já poderia ser prevista pelo mercado. Monteiro Junior entende que a empresa já vinha perdendo mercado, especialmente para as montadoras asiáticas, e tomou decisões equivocadas ao usar a guerra fiscal entre os estados no Brasil, ao invés de aprimorar sua gestão e suas estratégias de negócios em um mercado global tão competitivo. “Pouco se escreveu sobre isso, mas a verdade é que a Ford não resistiu a concorrência dos asiáticos no Brasil, e perdeu mercado” argumentou Monteiro Junior.

“Pouco se escreveu sobre isso, mas a verdade é que a Ford não resistiu a concorrência dos asiáticos no Brasil, e perdeu mercado”

Jorge Monteiro Junior

Para o advogado e consultor em gestão Marco Antônio Francisco, o momento é de reflexão sobre os modelos de gestão adotado nos diversos setores econômicos, em que a relação do público com o privado precisa ser revisto. Francisco defende um modelo de participação mais consciente, onde aspectos técnicos tenha maior relevância e menos contaminação político-ideológica.

PIONEIRISMO E DECLÍNIO – Milad Kalume Neto, da consultoria automotiva global Jato Dynamics, afirmou ao portal Exame, que a decisão da Ford acontece em meio a maior transformação da indústria automotiva global, que busca viabilizar o carro do futuro: elétrico, autônomo e altamente conectado. Neste cenário, marcas como a novata Tesla, de Elon Musk, e a americana General Motors lideram a corrida.

Ainda segundo o especialista, a Ford, pioneira na indústria automotiva global, vem tentando acompanhar a revolução vivida pelo setor. O discurso envolve eletrificação do portfólio, com destaques recentes para o Mustang 100% elétrico e os planos para lançar a F-150 — picape mais vendida do mundo — na versão zero emissões. A estratégia pode ser insuficiente diante da complexidade desse novo mercado, que demanda vultosos investimentos. As empresas têm inúmeros desafios à frente, como o desenvolvimento de baterias e sistemas de automação.

Num cenário em que a Ford luta para manter participação nos principais mercados em que atua, o pioneirismo pode não ser suficiente. “Globalmente, é possível que a marca esteja com dificuldades de se adaptar em um cenário de transição da indústria automotiva. O futuro reserva muitas incertezas para a empresa”, diz Neto.

 

FUTURO – Para o professor Doutor em Economia pela Unicamp Eduardo José Monteiro da Costa, as dificuldades da Ford, dentro de uma cadeia de distribuição global não vêm de hoje. Em artigo publicado esta semana, o economista afirmou que a empresa já vinha sofrendo com a perda de mercado, em especial para as montadoras coreanas, japonesas e francesas, e respondendo atualmente por apenas 7% do mercado nacional.

De acordo com o economista, a pandemia, com sua repercussão econômica, apenas agravou ainda mais a situação delicada da empresa, que já operava com elevada ociosidade em suas plantas industriais, aliada a atual imposição mercadológica de uma ampla reformulação tecnológica que as empresas automobilísticas estão fazendo nos últimos anos, a um custo elevado. Isto tem obrigado não somente a Ford, mas as empresas automobilísticas de uma forma geral a reavaliarem as suas estratégias globais de produção. Nesse sentido, Barnabé lembrou um erro histórico cometido pela Ford no final dos anos 80, que foi a criação da Autolatina. Uma joint venture, criada em parceria com a Volkswagen, que passaria a ter mais de 50% de mercado no Brasil e 30% na Argentina. “Eu conheci a Ford no auge da empresa, no tempo em que ter a marca era um status, uma tradição. A partir da criação da Autolatina a Ford no Brasil perdeu sua marca e sua identidade” afirmou.

Sobre os impactos na Baixada Santista, Barnabé entende que não haverá repercussão negativa. E se houver, será até benéfica, visto que a Ford já escoava sua produção pelo seu porto privado no estado da Bahia.

 

 

Assista ao programa completo

 

live Protagonismo Regional em Debate, promovido e organizado pelo Movimento Protagonismo Cidadão é transmitido pelo Youtube, Facebook e Instagram todas as segundas feiras, a partir das 19h30h.

 

Programa de 18 de janeiro de 2021

Painel PORTO CIDADE

Tema – Como o fechamento da Ford impactará o mercado local?

Apresentação, Sérgio França Coelho

 

SOBRE OS CONVIDADOS

JORGE MONTEIRO JUNIOR, Diretor da Fatec Baixada Santista Rubens Lara. Diretor de várias Faculdades e Universidades nos últimos 40 anos. Economista, Mestre em Administração, Doutor em Engenharia. Executivo público no Governo de São Paulo aposentado. Exerceu os mais elevados cargos na estrutura do Governo de São Paulo.

 

LUIZ CARLOS BARNABÉ DE ALMEIDA, Mestre em Administração. Economista. Jornalista. Pesquisador. Professor Universitário. Autor do Livro: “Introdução ao Direito Econômico” e co-autor em muitos outros no Brasil e no Exterior. Exerceu papéis relevantes no país. Atualmente, Vice-Presidente da Ordem dos Economistas do Brasil. Diretor do Comitê Economia 4.0 e Superintendente da Dig&Tal Inteligência Artificial.

 

MARCO ANTÔNIO FRANCISCO – Advogado e Consultor em Gestão nas áreas do terceiro setor e governança. Foi chefe do Departamento de Atividades Turísticas de Santos 2010 a 2012. Hoje atua como Consultor de Gestão e Negócios – criador da marca PROSPERIDADE SISTÊMICA; E no 3° Setor como Coordenador Administrativo da ONG Concidania – Consciência pela Cidadania na Estação da Cidadania