A contribuição do III Forum Brasil de Turismo Cultural.
*por Arq. Urb. Profa. Dra. Jaqueline Fernández Alves.
A relação entre patrimônio e turismo cultural tem ganhado relevância diante dos desafios contemporâneos das gestões urbanas, valorização da memória e construção de modelos sustentáveis para os centros históricos. No III Fórum Brasil de Turismo Cultural, que foi realizado no último mês de outubro, se discutiu sobre o desafio da criação de distritos turísticos culturais como estratégia capaz de articular políticas públicas, mercado, comunidade e identidade territorial.
“No caso de Santos, compreender a organização física e social do território central é indispensável.”
Um dos pontos centrais é o fortalecimento da profissionalização da gestão dos equipamentos histórico-culturais, condição essencial para consolidar um circuito cultural regional consistente. Mas nenhuma política pública, por melhor que seja, se sustenta sem a qualificação das pessoas que atuam diretamente no território. O turismo cultural depende de equipes preparadas — guias, historiadores, educadores, arquitetos, gestores culturais — capazes de interpretar a cidade, reconhecer suas camadas e comunicar seu valor.

“Discutir patrimônio e memória significa reconhecer que edifícios, ruas e atmosferas urbanas são expressões materiais de processos sociais profundos.”
No caso de Santos, compreender a organização física e social do território central é indispensável. A formação do núcleo urbano a partir do porto e do traçado colonial moldou ruas, quarteirões e edifícios que testemunham ciclos econômicos, reorganizações espaciais e novas centralidades. Essa estrutura urbana revela uma cidade construída por camadas, nas quais o patrimônio material se entrelaça às dinâmicas econômicas, sociais e culturais.
As transformações recentes também reconfiguram esse território: mudanças no perfil populacional, esvaziamento residencial, perda de vitalidade e posterior reocupação por novos grupos evidenciam como a organização social redefine a paisagem. Regulações urbanísticas inadequadas e intervenções desconectadas da realidade local contribuem para processos de fragilização e descaracterização.
Nesse contexto, discutir patrimônio e memória significa reconhecer que edifícios, ruas e atmosferas urbanas são expressões materiais de processos sociais profundos. Inventários, leituras urbanas e a ampliação das noções de patrimônio — incorporando dimensões imateriais e afetivas — tornam-se instrumentos fundamentais para reconstruir narrativas e fortalecer vínculos de pertencimento.
“O turismo cultural, quando bem estruturado, é uma estratégia potente de revitalização urbana.”

O turismo cultural, quando bem estruturado, é uma estratégia potente de revitalização urbana. Ele não se limita a atrair visitantes, mas a produzir experiências de qualidade, baseadas em narrativas consistentes e na aproximação entre passado e presente. E é justamente nesse ponto que a formação de profissionais do turismo se mostra indispensável: para transformar informações em conhecimento, visitas em experiências e espaços em lugares de memória.
O IV Fórum BRASIL de Turismo Cultural poderá promover ações de capacitação que incluam agentes e trabalhadores do turismo de diferentes áreas, de diferentes cidades brasileiras, criando espaços de troca, atualização e fortalecimento coletivo do conhecimento.
Ainda assim, persistem desafios. Conflitos entre preservação e renovação, processos de gentrificação, perda de referências sociais e falta de planejamento integrado dificultam a consolidação de políticas públicas duradouras. A construção de estratégias conjuntas entre cultura, turismo e urbanismo é fundamental para evitar que o desenvolvimento urbano resulte em apagamento.
A percepção equivocada de que o patrimônio “atrapalha” ainda é comum. Muitas vezes se assume que o centro histórico está “resolvido” e que basta abri-lo ao turismo para que tudo funcione. Essa visão simplificada produz justamente o contrário: apaga camadas de memória, invisibiliza histórias e enfraquece a identidade do território — exatamente aquilo que deveria ser o núcleo do turismo cultural.
Um edifício abandonado não é um obstáculo: é um ativo cultural em potencial. Para que ele seja reconhecido assim, é preciso olhar técnico, sensibilidade e conhecimento. O patrimônio não se ativa sozinho. Ele depende de profissionais capacitados, capazes de interpretá-lo, contextualizá-lo e devolvê-lo à cidade com sentido. Sem essa mediação humana, até o melhor patrimônio permanece silencioso.
O verdadeiro legado do patrimônio é o pertencimento.
A cidade inteira compõe essa herança, expressa na ambiência, no cotidiano e na memória coletiva. E, afinal, ninguém preserva aquilo que não reconhece.